terça-feira, 12 de junho de 2012


Esperar!!

Saber esperar é um dom que poucos têm. E então, saber esperar pelo que não é certo receber é um risco que nem todos estão dispostos a correr. A pura ocasionalidade da vida humana precede os sonhos que se traçam e que poderiam dar alguma espécie de sentido à nossa efémera existência. Num segundo podemos observar cada sensação entrelaçar-se num mundo de ilusões e cada uma dessas sensações têm um papel a representar na coloração da nossa tela individual. Mas, como seres sociais que somos a nossa tela pertence a um Museu. Museu esse, que pode ser mais ou menos conhecido e com mais ou menos objectividade, mas o importante, é saber que independentemente da parede que nos suporta, há sempre olhos atentos e críticos que nos fazem esperar. E cada um, com as suas próprias cores e formas, espera à sua maneira, sentindo o pó acumular-se nas molduras que nos foram forjadas, sonhando e desejando que um dia, talvez, possamos estar mais perto de tocar as nuvens. Ter a coragem de acabar com a estabilidade de algo que nos confortava e sentir o fogo fazer-nos arder a pele em desespero pelo desejo de algo mais, é a mais pura das representações da “irracionalidade-racional” humana. Pois aquilo que nos move e impele a agir não é o conforto, mas sim a revolução mental que cada um carrega dentro de si. Mas o Museu onde estamos inseridos apenas aceita um certo número de diversidades, um certo número de caminhos a percorrer e levantarmo-nos do chão com todo o peso a cair sobre nós é algo que mentes que não esperam não são capazes de fazer. As obras de arte acima de nós não chegaram onde chegaram pelo simples facto de deixar a sua existência e conforto superar o sonho e a espera de algo mais, elas romperam o espectável e a sua presença foi notada devido à espera a que se sujeitaram, de resto será incrivelmente desnecessário dizer que esperar sem movimento não pertence a uma definição correta de uma espera construtiva. Pois esperar está em querer criar asas onde elas não existem e de deixar o corpo levitar para dimensões ainda não exploradas. Pois muitas vezes a melhor forma de morrer também é a melhor forma de viver. Espero então um dia, poder pintar, escrever, construir ou pronunciar a diferença diante de mim, pois apenas esse desejo me pode prevenir do movimento linear e me vai ensinar a amar a vida, porque a vida é esperar e esperar não é morrer, mas sim nascer todos os dias com algo novo para viver. 

sábado, 2 de junho de 2012


Momentos

Há momentos que não pertencem ao tempo nem ao espaço, há momentos que desafiam as leis da física e nos fazem petrificar sentindo cada músculo inútil não reagir às nossas ordens.
Nesses momentos as cores, as sensações e o sabor, explodem em êxtase, as pestanas recusam-se a fechar e as veias do pescoço cedem resistentes ao poder do sangue. Puro sentido e sensação, puro segundo e conclusão, a constatação da incredibilidade desses momentos choca-nos ao percebermos o quão vulneráveis somos a eles. O mundo onde o pensar não entra, o tempo em que o vazio extravagante do sentir preenche o nosso olhar, o espaço onde um corpo é dissecado de dentro para fora. Nesses momentos a condição humana é reduzida a pura irracionalidade e inação. A lógica de que tanto nos orgulhamos não cabe nestes panoramas irreais, tudo de mais profundo alojado em nós consome-nos como fogo ardente, e numa expiração tudo é expelido com toda a força e firmeza. Palavras sem sentido são recortadas nos nossos lábios e um brilhante e fantástico momento de pura liberdade surge. Os segundos são como espinhos pontiagudos que queremos evitar e ficamos nesse êxtase de incompreensão o maior tempo possível ignorando os olhares, ignorando as palavras e ignorando a vida, pois nesses momentos, a vida é o momento. Tentamos escapar á realidade, pois quando a recebemos de volta tudo se move demasiado rápido para uma compreensão possível, tudo é tão abstrato e ao mesmo tempo tão concreto que sentimos o nosso corpo ser comprimido contra o chão fazendo-nos sentir tão pequenos e insignificantes. Mas quando a realidade começa lentamente a abrandar e podemos esclarecer o que nos rodeia, pensamos no momento de arte sonhadora que acabamos de experienciar, e os pontos de interrogação seguem-se dos de exclamação mudando as imagens que nos rodeiam. São nestes momentos que nascem as ideias, os sonhos e os sentidos, mas o melhor destes momentos é quando incrivelmente nos possibilitam nascer de novo e tudo se torna tão diferente e tão igual.